sexta-feira, 29 de maio de 2015

Dois bilhetes à Felix

Felix,

Gostaria de fugir desta festa, com simpatia ágil e sem brechas. Estou aqui, à margem da ceia. Me impus diante do bolo, quero uma fatia deste outubro. O compadecido reacendeu o fogo, mas não se carbura o ranço. 
Palmas. Abraços, 


Felix,

Descubro hoje que o vento de maio não me enverga. É pena. Quem come areia e não digere, qualquer dia vira pedra. É preciso dar férias aos chacras e aos poros. Meus neurônios são como estrelas, vê? tão ilusórios quanto. Meus olhos me perseguem. Estou à espreita do meu próximo passo. É que aconteceu o seguinte: um desconhecido segurou meu braço e me deu conselhos sobre a paixão -- band-aid no calcanhar, dois pra lá dos pra cá, olhe: que Deus me perdoe, mas eu estava bem observando a lua. Meus neurônios são como estrelas. Ou raízes na terra podre. O mofo chegou de repente. Atenciosamente,



Brasa

apago a brasa na ponta do meu dedo
apago a brasa na ponta do meu dedo
acendo a brasa morta do meu peito
casa torta do meu coração
rua seca da minha garganta
casa torta do meu coração

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Corredor noturno

Sinais.
Água caindo, caída
ainda agora
amigos abandonados ao pé da escada, inda
canção abandonada dedicada a mim.
Sinais.
Sons.
Água caindo.
Estranhíssimo.
Marca que fica sempre, pois
"De tudo fica um pouco".
Aquele moço que coisa.
Aquela vez inesquecível.
Os presentes na roda.
Os demiurgos, atravessadores.
E o coração da mãe horas antes, dantes. 
seus seios, seu corpo pequeno forte 
dantes dentes dantes dentes bate o sino de Belém.
E de tudo resta um guapo, 
nasce.
Falso brilhante
Ego de retirante
e olhinhos de amante
e cheiro de lubricante, eterno como Proderm e apesar dele
e apesar de e com o pesar de
ylang ylangs, figos da Turquia,
tuberosas do Egito, essa mãos nunca ficarão limpas?,
veja multiuso, cerveja.
Só a lavanda lava.
Só a palavra salva.

Pontada
na alma.
calada.
E bater palma pra doido pular.

Anima-anima-animanimador de festa alheia.
Última ceia – síndrome –
e chegar atrasado. "É sempre um pouco tarde".
Um pouco depois da lua cheia.
Repetir e repetir a disciplina.
Reprovação por falta.
Esquecer os olhos.
Onde é que eu estava?
Saudade do que seria.

sábado, 3 de agosto de 2013

rascunho: Sábado

Os espelhos sobrepostos do tempo, por onde eu me esgueiro.
Dar de cara consigo entre um trago e outro trago e outro.
Fugir de si numa corrida, não, numa caminhada lenta.
A velha lição de João e Maria.
Mas eu não tinha pão.



sexta-feira, 7 de junho de 2013

Rascunho: 14 de julho. Casa da Dora. Botafogo. Meio-dia. Quarto dos fundos. "A coisa..."

A coisa toda é incompreensível. A coisa incompreensível. A coisa não se aprende nem se ensina. A coisa nunca nos é dada. Daí o risco. É preciso ter coragem. Sem coragem, sem coisa. Não. Sem coragem olha-se a coisa. Para lidar com a coisa, coragem. Daí o risco. Porque ter coragem é ter mais que ter a coisa. A coragem é outra coisa, com suas próprias arestas. A coragem não se soma à coisa. A coisa não se acopla. Nada se soma a nada. Apenas dá-se a mão à coisa e se vai. Ninguém se soma a ninguém. Nos damos as mãos e vamos.
Sonhei que precisava tomar o trem. Pulei algum muro, passei por algum buraco e cheguei à via férrea. Do que eu queria escapar? Ouvi com temor o barulho da máquina, vi sua luz que vinha. Me preparei com vergonha, das pedras, do ferro e das pessoas que estavam. O trem passou em outro trilho, não no que eu esperava. Fui em sua direção, mas esbarrei - percebi - não - segurei - vi - fui atraído por ela - a cerca de arame. Senti o choque e antes a tristeza da morte. Um medo farto. O abandono diante de si, diante do próprio medo. Morrer eletrocutado. No choque percebo tudo se queimando devagar, em microexplosões de células. A pele se enruga, resseca, torna-se cada vez mais velho. Os olhos saltam e vêem. E cada vez mais velho, mais carcaça e pó, esturricado na aceleração súbita da vida, o corpo velho diz: como me afastei da vida, e agora o tempo me cobra, a água invade o aterro. Com tristeza se observa o próprio medo, o próprio corpo ralentado de medo.
A vergonha da falsidade das palavras, da necessidade das palavras, do mau uso de palavras. Do mau uso do som. Do mau uso do gesto. Do mau uso do tempo. Do mau uso do corpo em relação a. Do mau uso do corpo colocado no espaço.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Rascunho: Tentativa na noite

Te esqueço bem quem mereço
Te lembro pois foi em setembro
Que deitei em meu berço ali
adormeço açucarado suor
encharcado nenê em delírio
Manhã de calor
Desperto saltando
na noite de agora
Desperto saltando na noite de agora em diante

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

rascunho: dois poemas


Névoa clara me declara
Me consola me desola
Me dá mediu me dói
Me diz...
Pavio
Navio
Lençol
Cobrindo a coisa na ilusão da coisa
Na cisão da coisa dentro
Fermento


Calo e recalo
Engulo
Quem ouvirá o impenetrável
Velha esquecida na casa grande
Vive morre cheira a velha
Carne fora do congelador
O saco esquecido fora
A vida esquecida dentro
E a porta estava sempre aberta