quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Corredor noturno

Sinais.
Água caindo, caída
ainda agora
amigos abandonados ao pé da escada, inda
canção abandonada dedicada a mim.
Sinais.
Sons.
Água caindo.
Estranhíssimo.
Marca que fica sempre, pois
"De tudo fica um pouco".
Aquele moço que coisa.
Aquela vez inesquecível.
Os presentes na roda.
Os demiurgos, atravessadores.
E o coração da mãe horas antes, dantes. 
seus seios, seu corpo pequeno forte 
dantes dentes dantes dentes bate o sino de Belém.
E de tudo resta um guapo, 
nasce.
Falso brilhante
Ego de retirante
e olhinhos de amante
e cheiro de lubricante, eterno como Proderm e apesar dele
e apesar de e com o pesar de
ylang ylangs, figos da Turquia,
tuberosas do Egito, essa mãos nunca ficarão limpas?,
veja multiuso, cerveja.
Só a lavanda lava.
Só a palavra salva.

Pontada
na alma.
calada.
E bater palma pra doido pular.

Anima-anima-animanimador de festa alheia.
Última ceia – síndrome –
e chegar atrasado. "É sempre um pouco tarde".
Um pouco depois da lua cheia.
Repetir e repetir a disciplina.
Reprovação por falta.
Esquecer os olhos.
Onde é que eu estava?
Saudade do que seria.

sábado, 3 de agosto de 2013

rascunho: Sábado

Os espelhos sobrepostos do tempo, por onde eu me esgueiro.
Dar de cara consigo entre um trago e outro trago e outro.
Fugir de si numa corrida, não, numa caminhada lenta.
A velha lição de João e Maria.
Mas eu não tinha pão.



sexta-feira, 7 de junho de 2013

Rascunho: 14 de julho. Casa da Dora. Botafogo. Meio-dia. Quarto dos fundos. "A coisa..."

A coisa toda é incompreensível. A coisa incompreensível. A coisa não se aprende nem se ensina. A coisa nunca nos é dada. Daí o risco. É preciso ter coragem. Sem coragem, sem coisa. Não. Sem coragem olha-se a coisa. Para lidar com a coisa, coragem. Daí o risco. Porque ter coragem é ter mais que ter a coisa. A coragem é outra coisa, com suas próprias arestas. A coragem não se soma à coisa. A coisa não se acopla. Nada se soma a nada. Apenas dá-se a mão à coisa e se vai. Ninguém se soma a ninguém. Nos damos as mãos e vamos.
Sonhei que precisava tomar o trem. Pulei algum muro, passei por algum buraco e cheguei à via férrea. Do que eu queria escapar? Ouvi com temor o barulho da máquina, vi sua luz que vinha. Me preparei com vergonha, das pedras, do ferro e das pessoas que estavam. O trem passou em outro trilho, não no que eu esperava. Fui em sua direção, mas esbarrei - percebi - não - segurei - vi - fui atraído por ela - a cerca de arame. Senti o choque e antes a tristeza da morte. Um medo farto. O abandono diante de si, diante do próprio medo. Morrer eletrocutado. No choque percebo tudo se queimando devagar, em microexplosões de células. A pele se enruga, resseca, torna-se cada vez mais velho. Os olhos saltam e vêem. E cada vez mais velho, mais carcaça e pó, esturricado na aceleração súbita da vida, o corpo velho diz: como me afastei da vida, e agora o tempo me cobra, a água invade o aterro. Com tristeza se observa o próprio medo, o próprio corpo ralentado de medo.
A vergonha da falsidade das palavras, da necessidade das palavras, do mau uso de palavras. Do mau uso do som. Do mau uso do gesto. Do mau uso do tempo. Do mau uso do corpo em relação a. Do mau uso do corpo colocado no espaço.