Uma princesa adormecida, de dentro do seu sono, lançou sua voz no espaço para que o desconhecido pudesse encontrá-la. Dizia assim:
"Tu, desconhecido, vens a galope enquanto estou adormecida. Teu cavalo é branco e teu peito é forte. E vens como se não rolassem as cabeças tal qual limões caídos do pé, e os corpos tombados como troncos ou cidades desaparecidas, civilizações extintas. Teu corpo, civilização prometida, cidade grande e iluminada, em algum lugar de tuas artérias ruas pobres dos plebeus: marcham eles com as ruas nas costas por todos os lados do teu corpo – tu não sabes, mas teus olhos sabem e se fecham; tu não sabes, mas tua boca sabe e se contrai e sorri, e teu peito respira, e tu te esqueces do que nem mesmo sabias.
Eu, que estou adormecida, estou o que se julga estar. Estou a palavra que ouvi pra o que estou. E hoje julguei que poderia te arrastar para dentro do meu sonho. Aí veríamos todos adormecidos em vida, veríamos de todos os pontos, despertos dentro do sonho. Mas esse sonho seria meu, necessariamente. Minha maldade me fez esquecer que ainda não existes, não tens forma nem sono.
Também possuo uma coragem, que é a de ser frágil. Minha sedução residia no que não existe. E hoje, eu toda existindo, me entrego ao teu amor assim, cansada de te buscar e tentar te captar. Me entrego ao apagamento do meu eu como uma estrela. E talvez encontres o meu amor sem nunca me encontrar. Talvez vejas meu amor mas nunca me vejas. E neste instante do encontro só te peço que ames também. Que ames meu amor mesmo que eu não exista. Tu ainda não existes, eu ainda não existo. Ama o meu amor porque é também não sendo que se é."
Um viajante, perdido na névoa do reino, ouviu as palavras da princesa e lançou ao vento as seguintes palavras:
"Teu corpo, cidade onde convivem o ouro e a fúria, o desejo, passos em volta dos edifícios altos, mulheres e homens buscando tua umidade. E, além disso tudo, a cidade de coisas mais simples. A cidade do teu coração onde mora o teu coração que bombeia teu sangue, fazendo-o correr por toda tua extensão. Teu pulmão que respira. Teu intestino que guarda tudo o que não presta de ti e depois joga fora, teus dejetos que se misturam com outros mais podres, pra juntos gerarem alguma vida, e talvez outra cidade em forma de flor.
Ou uma cidade de raiz, civilização da terra, a cidade da terra – que é também a cidade das formigas e é sempre outra cidade. As duas cidades às vezes se confundem, o que prova que duas cidades podem existir no mesmo lugar.
Cada cidade com seu passo, em cada esquina uma outra cidade, assim como em cada um dos teus dedos uma tu que se encontra com outra tu. Tu em cada canto teu. Cada um dos pelos falando uma língua. Mas quando se arrepiam todos sabem a língua do silêncio. O silêncio é uma peste boa. O silêncio é um momento novo na história do teu território ínfimo.
Todos convivendo juntos: teu coração que bate, teu pulmão que respira, teu intestino que expulsa. E se um dia teu sangue entrasse em desacordo com teu coração, parasse o fluxo, tua cidade morreria. Mas teu sangue precisa de teu coração. E teu coração pulsando sozinho sem teu sangue seria apenas uma imagem, uma imagem sem vida e sem morada."
Mas a princesa já não pode ouvir essas palavras. Felizmente, uma camponesa que passava por ali escutou as palavras do viajante e correu para casa cantando:
Os mares que quebram aqui
são os mesmos que quebram lá
O que muda é a beira do mar
Quem viaja é a beira do mar
Chegando em casa, tentou contar ao pai velho o que havia escutado do desconhecido. "Silêncio", lhe vinha à mente, e ela não conseguiu dizer nada. Depois de algum tempo balbuciando, se encolheu toda, põs as mãos sobre os olhos, trêmula, e com muito esforço pode sussurrar: "Mas o mar eu não entendo: só entendo o que respiro." E nunca mais cantou canção alguma. E seu velho pai não entendeu coisa alguma.