domingo, 11 de dezembro de 2011

Rascunho: Pesadelo

Eu tenho que esqueci.
Eu preciso mentir ou ser forte. Eu não sou forte como um touro. Eu não sou forte como um lobo. Terei de mentir ou ser forte como um touro. O tempo não me fará. Tudo é triste tudo em riste não concorda não palpite.
O homem que vem da prisão. O homem que vem do corredor da prisão. Não me mate por favor. Nem me deixe morrer. Tenho medo do sofrimento aqui. Tenho fraco fraqueza caco caqueza imã imaginação. Minha imaginação diz coisas ruins mas olha eu te juro. Me desculpa mas ela diz coisas ruins.
A mata a selva. Alguém se funde à mata - não. Sombras nas sombras. A dor de alguém me entra. Alguém deitado de olhos abertos ele não estava de olhos fechados estava de olhos abertos ouvia e sabia de tudo ouvia atentamente. Sombras nas sombras. O espelho da madrugada.
Qual das cartas? - não - não me deixe morrer - isso é ainda pior - você está tornando tudo pior.
Quero voltar para a infância. Não. Isso não te faz bem. Quero sair da infância. Isso ainda não é bom. Me faço perguntas torturantes.
Não há como sair antes do tempo. Não há como sair antes do corpo. É um chamado da natureza. A natureza te chama para cair. A natureza te chama para lhe pregar uma peça. Seu pensamento é o vento que passa.
Onde é que você pensa que vai? Corrida pela mata, corpo arfante, vulto que passa como um borrão, a mata me passa como um borrão. Portas que se abrem sucessivas para a paisagem cada vez mais próxima. A floresta úmida. Me agacho na floresta úmida. O que você está fazendo? Isso não pode ser bom, de nenhum modo. O que você está pensando?
Não não
Não quero me fazer perguntas
Elas me fazem mal
Pensar numa floresta pode não ser bom.
Um quarto e uma porta. Isso não pode, de forma alguma, fazer bem.
Por que você está se mutilando?

domingo, 27 de novembro de 2011

Boates

1
Esperava que acontecesse.
Continuou esperando.
Outros dois não esperaram e fizeram. O primeiro fez e aconteceu. O segundo não teve a mesma sorte. Continuaram não esperando. Sonhavam apenas.
2
Se aproximaram e ficaram de boca aberta, aguardando, um do outro, o próximo passo. Cansaram seus maxilares e não tiveram força para se beijar. Se afastaram, se afastaram mais e desapareceram um para outro. E nunca mais se encontrariam, na multidão, ou na rua.
3
O primeiro vibrou todo de alegria com a chegada do segundo. Mas um terceiro os olhou e o primeiro não sabia se ele o queria ou se queria o outro. E se o terceiro ficaria triste vendo-o beijar o segundo.
Vendo isso, o segundo entendeu que o primeiro queria mesmo o terceiro. Mas percebeu que o terceiro não queria o primeiro. Seduziu o terceiro, e dançou livre com quem quisesse dançar.
O terceiro desejava o primeiro. Mas não quis atrapalhar, ou se sentiu ferido ao ver o segundo, afinal havia sido convidado pelo primeiro, ora essa. Mas cedeu aos olhares do segundo.
O primeiro se interpôs entre os dois. Sua tristeza não deixaria ninguém ser feliz sem ele.
O segundo foi embora e só se despediu do terceiro.
O primeiro não olhava mas queria dizer coisas com o olhar.
O terceiro olhava fixo mas não queria dizer absolutamente nada que não fosse verdade.
Havia um quarto.

A princesa e o desconhecido

Uma princesa adormecida, de dentro do seu sono, lançou sua voz no espaço para que o desconhecido pudesse encontrá-la. Dizia assim:

"Tu, desconhecido, vens a galope enquanto estou adormecida. Teu cavalo é branco e teu peito é forte. E vens como se não rolassem as cabeças tal qual limões caídos do pé, e os corpos tombados como troncos ou cidades desaparecidas, civilizações extintas. Teu corpo, civilização prometida, cidade grande e iluminada, em algum lugar de tuas artérias ruas pobres dos plebeus: marcham eles com as ruas nas costas por todos os lados do teu corpo – tu não sabes, mas teus olhos sabem e se fecham; tu não sabes, mas tua boca sabe e se contrai e sorri, e teu peito respira, e tu te esqueces do que nem mesmo sabias.
Eu, que estou adormecida, estou o que se julga estar. Estou a palavra que ouvi pra o que estou. E hoje julguei que poderia te arrastar para dentro do meu sonho. Aí veríamos todos adormecidos em vida, veríamos de todos os pontos, despertos dentro do sonho. Mas esse sonho seria meu, necessariamente. Minha maldade me fez esquecer que ainda não existes, não tens forma nem sono.
Também possuo uma coragem, que é a de ser frágil. Minha sedução residia no que não existe. E hoje, eu toda existindo, me entrego ao teu amor assim, cansada de te buscar e tentar te captar. Me entrego ao apagamento do meu eu como uma estrela. E talvez encontres o meu amor sem nunca me encontrar. Talvez vejas meu amor mas nunca me vejas. E neste instante do encontro só te peço que ames também. Que ames meu amor mesmo que eu não exista. Tu ainda não existes, eu ainda não existo. Ama o meu amor porque é também não sendo que se é."

Um viajante, perdido na névoa do reino, ouviu as palavras da princesa e lançou ao vento as seguintes palavras:

"Teu corpo, cidade onde convivem o ouro e a fúria, o desejo, passos em volta dos edifícios altos, mulheres e homens buscando tua umidade. E, além disso tudo, a cidade de coisas mais simples. A cidade do teu coração onde mora o teu coração que bombeia teu sangue, fazendo-o correr por toda tua extensão. Teu pulmão que respira. Teu intestino que guarda tudo o que não presta de ti e depois joga fora, teus dejetos que se misturam com outros mais podres, pra juntos gerarem alguma vida, e talvez outra cidade em forma de flor.
Ou uma cidade de raiz, civilização da terra, a cidade da terra – que é também a cidade das formigas e é sempre outra cidade. As duas cidades às vezes se confundem, o que prova que duas cidades podem existir no mesmo lugar.
Cada cidade com seu passo, em cada esquina uma outra cidade, assim como em cada um dos teus dedos uma tu que se encontra com outra tu. Tu em cada canto teu. Cada um dos pelos falando uma língua. Mas quando se arrepiam todos sabem a língua do silêncio. O silêncio é uma peste boa. O silêncio é um momento novo na história do teu território ínfimo.
Todos convivendo juntos: teu coração que bate, teu pulmão que respira, teu intestino que expulsa. E se um dia teu sangue entrasse em desacordo com teu coração, parasse o fluxo, tua cidade morreria. Mas teu sangue precisa de teu coração. E teu coração pulsando sozinho sem teu sangue seria apenas uma imagem, uma imagem sem vida e sem morada."

Mas a princesa já não pode ouvir essas palavras. Felizmente, uma camponesa que passava por ali escutou as palavras do viajante e correu para casa cantando:
Os mares que quebram aqui
são os mesmos que quebram lá
O que muda é a beira do mar
Quem viaja é a beira do mar
Chegando em casa, tentou contar ao pai velho o que havia escutado do desconhecido. "Silêncio", lhe vinha à mente, e ela não conseguiu dizer nada. Depois de algum tempo balbuciando, se encolheu toda, põs as mãos sobre os olhos, trêmula, e com muito esforço pode sussurrar: "Mas o mar eu não entendo: só entendo o que respiro." E nunca mais cantou canção alguma. E seu velho pai não entendeu coisa alguma.

dentro da casa escura

Dentro da casa escura
Você caminha e procura
E não pode ver, mas quer encontrar
E não pode ver, mas sabe que há
Um acidente, um desvio
Uma pedra no caminho
Não vá esquecer, nem desesperar
O que importa é saber
Onde você está

domingo, 28 de agosto de 2011

Rascunho: Uma gaveta aberta cheia de ar

Contrário à imagem do desejo. A sua imagem, a nossa imagem, é a lembrança da minha carne, para além de minha memória restrita – é a memória que me escapa. Para além do meu raciocínio, para além de meu centro e de minha vontade de indivíduo. A memória de uma necessidade que ultrapassa meus territórios, minha constituição de coisas que tem história. A necessidade do eu terra, a necessidade de cada substância minha, aquilo que move energiza minha moléculas, o choque que elas levaram a fazendo mover-me para isto: eu.
Nossa distância é a apenas o ar que nos une. Estamos unidos pela nossa distância. Posso chamar distância de amor. Uma forma da amor é essa: estendê-lo pelas estradas.
Palavras bem escolhidas e fotografias de uma vida que eu não conheço. Mas desconfio e farejo.
Uma gaveta aberta no meu peito. Meu peito se abre mas não cai no chão. Está vazio e aberto esperando que sua mão entre e mexa dentro. Sua mão apertando meu órgãos. Te dou meu coração. Aperá-lo pode ser como segurar um passarinho. Meus pulmões delicados sentirão cócegas. E também os ossos eu ofereço, minhas costelas para morder, lamber, chupar.
O seu corpo é feito de areia. Deito-me sobre ele e deixo a onda bater. O seu peito é areia molhada da beira. É noite. Não precebo seu corpo consistente de areia de beira se desfazendo, levado e trazido pelas ondas. amanhece e seu corpo é o mesmo, o molde idêntico, mas necessariamente outro, formado por outros grãos. Isto lhe dá a leve impressão de tempo passando.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Os ratos

Essa história é a de uma senhora muito branca e muito limpa e que viveu a vida toda na mesma ruazinha. Desde criança sabia (mais por ter ouvido do que por sentir) que a rua era boa e bonita: Deus a tinha feito assim há milênios e desde então não houve pedra colocada ali que não seguisse a obra divina. Por mais que a rua tivesse crescido, os homens que ali viveram sempre se preocuparam em continuar a vontade e o estilo de Deus. Não eram homens muito dados ao trabalho, porque sabiam (mais por terem ouvido do que por sentirem) que onde viviam tudo já estava desde sempre, era preciso apenas continuar e admirar.

A senhora branca e limpa, quando completara idade adulta, comprara uma casa do outro lado da rua que lhe parecera (mais por ter ouvido...) muito boa, cujos fundos davam para um horizonte muito misterioso que ninguém se arriscava a contemplar. Por uma mais misteriosa ainda convenção geral, desse assunto ninguém falava. E quando, por descuido, alguém, fumando no quintal, olhava para o horizonte secreto, os olhos já se embaçavam sozinhos, rápidos, o tempo de a cabeça girar tranqüila, sem precisar negar. Eu soube por alto que por isso é que começaram a contratar empregadas domésticas: elas eram caladas e podiam ir ao quintal dos fundos sem gerar nenhum tipo de incômodo.

Para continuar a obra divina era preciso também ser muito feliz. E a senhora se orgulhava de sê-lo. Isso atraía turistas que traziam dinheiro para a manutenção do que era de Deus.

Num dia (e num dia muito errado, pois os estrangeiros viriam visita-la) a senhora descobriu, sobre seu telhado, um rato. Pensou em gritar. Mas calou, entrou em casa e preferiu continuar tomando seu café. E se as visitas chegassem e não vissem o rato, que mal haveria? Por outro lado, os ratos se multiplicam depressa e ela então imaginou dezenas deles sobre seu telhado, descendo pelos canos, vindo comer seu pão e suas bananas. De repente sentiu nojo de seus pães e de suas bananas (“Banana é comida de rato”). Seria o caso de agradar-lhes?
As visitas vieram e se foram, sem notar a presença do rato. Os dias vieram e se foram também, mas a senhora, antes de dormir, olhando para o teto, sempre o imaginava transparente, imaginava vários ratos vistos de baixo; de repente algum deles olhava para dentro do quarto, olhava na direção dela. A cada dia a população dos ratos aumentava em sua cabeça, e o medo era o de que eles desabassem sobre ela, de que caíssem, devorassem sua casa que era, afinal, uma obra divina; medo de que devorassem a ela própria, de que a devorassem como a um cordeiro, amém.

Certa de que os ratos existiam e se multiplicavam a cada dia, chamou um rapaz forte da rua para ajudar: subiram no telhado e, de fato, encontraram dois ratos. Era uma surpresa, uma grande surpresa triste, porque os ratos pertenciam à sua imaginação, ora essa, os seus pesadelos, seu medo antes de dormir – como lidar agora com essa realidade bruta, ali, no seu telhado? Por dentro da casa, abriram o forro do teto: entre o forro e o telhado é que a realidade se mostrava mais bruta: havia dezenas e dezenas de ratos, pretos, com seus olhos atentos e pedintes. A senhora chorou, primeiro por medo e, depois pela estranha sensação de sonho findo. Sonhar com coisas más era melhor que viver com coisas más. Ou com coisas simples. Sim: sonhar com coisas más era melhor que viver com coisas simples. As coisas simples nos fazem lembrar de que estamos vivos e nos aproximam do fim do mistério, assim como a aproximação do fim de um livro bom. Perigo iminente. Consciência plena demais da própria respiração. Agora, por trás das paredes verdes da casa, havia cimento, e por trás do cimento, tijolos empilhados.
Temendo a queda real dos ratos sobre sua cabeça, pensou em exterminá-los, de uma só vez. Mas o rapaz forte (que também estava muito assustado) propôs chamar um outro morador da rua, cientista, que poderiam resolver a questão de outra forma. O rapaz sabia que ele é que seria o encarregado de matar os ratos, mas também achava que, se os ratos estavam sobre aquele teto, naquela rua, é porque também eram criaturas de Deus.
O vizinho cientista apresentou o seguinte plano: trancar os ratos no teto mesmo, trocar o forro, as paredes altas e o telhado por vidro, de forma que todos na rua pudessem observar os bichinhos e compartilhar o estudo de seu comportamento. A senhora acatou a idéia sem saber porquê (mais porque sentisse do que por algo que ele a tenha dito, mais por sentir um tipo de salvação se aproximando).
Trancados os ratos no vidro, o passo seguinte seria deixá-los passar fome. Com o tempo, os ratos mais fortes mataram os pequenos e os comeram. Como se reproduziam depressa, se insistissem neste tipo de alimentação, não lhes faltaria comida. Os moradores da ruzinha observavam encantados o comportamento pitoresco das pequenas criaturas, se punham diante da casa da senhora, alguns colocavam escadas para ver mais de perto, e os mais íntimos viam de baixo, de dentro da casa. Isso trouxe muita visibilidade para a senhora e para o cientista, que publicou livros e foi chamado para dar aula na universidade onde os jovens felizes da rua estudavam.
Mas os ratos não eram bobos e, para eles, os seres humanos também estavam numa grande vitrine, para serem observados. Os ratos perceberam, a princípio, que a comida dos moradores era muito mais atraente. Depois notaram que sua forma de viver era muito mais divertida. Então se organizaram, e por uma brecha, de vez em quando passavam, em pequenos grupos, para roubar comida e pedaços de roupa. Tudo isso era feito à noite, de forma que quando a senhora e os outros moradores acordavam, se deparavam com a cena que julgavam patética: os ratos enrolados em pedaços de panos coloridos, copiando os seres humanos. No início pareceu engraçado, até que as roupas ficaram notoriamente esburacadas e o biscoito faltou para as crianças mais exigentes. Os moradores escutaram o plano do cientista: eliminar os ratos mais espertos. Depois, os mais fortes. Assim fizeram, e quando os ratos que sobraram se viram atordoados, o cientista apresentou uma proposta que escandalizou a todos: alimentar os ratos com migalhas e produzir roupas e objetos especialmente para eles, coisas que se assemelhassem às dos humanos, para que os ratos se sentissem acalentados, mas nunca superiores.

Os ratos, com o tempo, se acalmaram e até se tornaram amigos dos moradores. Os estrangeiros vinham vê-los também, e se encantavam com seus modos pitorescos, porém com leves toques de civilização. Estes fatos eram bons e distraiam os moradores. Inclusive o medo era bom. A senhora branca e limpa, por exemplo, de vez em quando inventava um sonho ruim: o de que os ratos se descontentariam, mais dia menos dia, e viriam desabar sobre ela. Estes medos eram quentes e a faziam esquecer-se do mistério escondido no horizonte.

Eu, que nunca morei naquela rua, posso dizer que o que havia no horizonte não era segredo nenhum: o que havia eram ratos, em maior quantidade, mais pretos, mais magros, com os olhos muito mais atentos e pedintes. A diferença é que eram fracos para pular o muro e não desabariam na cabeça de ninguém. Não botavam medo. Mas eram tristes de se ver.

Rascunho prum rock

Se você quer cair na briga cuidado comigo
Guerra de espada cosquinha no umbigo
O amor é uma coisa boa, amor
O amor é uma coisa boa que eu quero te dar
E eu te dou prazer e te dou um filho
Pra você parar de bater
Você não fala como eu falo
Mas já não me importa
Te faço um filho pelas costas