sexta-feira, 7 de junho de 2013

Rascunho: 14 de julho. Casa da Dora. Botafogo. Meio-dia. Quarto dos fundos. "A coisa..."

A coisa toda é incompreensível. A coisa incompreensível. A coisa não se aprende nem se ensina. A coisa nunca nos é dada. Daí o risco. É preciso ter coragem. Sem coragem, sem coisa. Não. Sem coragem olha-se a coisa. Para lidar com a coisa, coragem. Daí o risco. Porque ter coragem é ter mais que ter a coisa. A coragem é outra coisa, com suas próprias arestas. A coragem não se soma à coisa. A coisa não se acopla. Nada se soma a nada. Apenas dá-se a mão à coisa e se vai. Ninguém se soma a ninguém. Nos damos as mãos e vamos.
Sonhei que precisava tomar o trem. Pulei algum muro, passei por algum buraco e cheguei à via férrea. Do que eu queria escapar? Ouvi com temor o barulho da máquina, vi sua luz que vinha. Me preparei com vergonha, das pedras, do ferro e das pessoas que estavam. O trem passou em outro trilho, não no que eu esperava. Fui em sua direção, mas esbarrei - percebi - não - segurei - vi - fui atraído por ela - a cerca de arame. Senti o choque e antes a tristeza da morte. Um medo farto. O abandono diante de si, diante do próprio medo. Morrer eletrocutado. No choque percebo tudo se queimando devagar, em microexplosões de células. A pele se enruga, resseca, torna-se cada vez mais velho. Os olhos saltam e vêem. E cada vez mais velho, mais carcaça e pó, esturricado na aceleração súbita da vida, o corpo velho diz: como me afastei da vida, e agora o tempo me cobra, a água invade o aterro. Com tristeza se observa o próprio medo, o próprio corpo ralentado de medo.
A vergonha da falsidade das palavras, da necessidade das palavras, do mau uso de palavras. Do mau uso do som. Do mau uso do gesto. Do mau uso do tempo. Do mau uso do corpo em relação a. Do mau uso do corpo colocado no espaço.